




Sociologia e Cinema
Introdução
Positivismo
A Revolução Industrial e a Revolução Francesa colocaram frente a frente três grupos, ou classes sociais, que iriam disputar o poder político e econômico e, a partir de então, desenvolver teorias sociológicas e filosóficas que lhes dariam suporte teórico na disputa, ou seja:
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A nobreza, que desejava o retorno da antiga ordem, comumente denominada de Antigo Regime;
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A burguesia, detentora dos meios de produção e que disputava o poder político e econômico com a nobreza, defensora do Estado Liberal, que então se impunha;
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O proletariado, mão de obra necessária para o desenvolvimento do capitalismo europeu, defensor da superação do capitalismo, em favor de um novo regime, o socialismo.
Antes de continuar, vale a pena refletir:
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O que foi o Antigo Regime? Quem será que deu este nome, ou seja, "Antigo", em oposição ao "Novo"?
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O que é um Estado Liberal? Será que vivemos hoje neste tipo de Estado? Lembre-se que o liberal, neste caso, refere-se a aspectos econômicos da sociedade, e não aos sociais.
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O que são meios de produção? Para que servem?
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O proletariado é aquele que vive de seu salário, ou seja, o assalariado. Você consegue imaginar, hoje, nossa sociedade sem o assalariado?
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Pense bem: para que o capitalismo possa funcionar, é necessário o consumo, para que a produção não fique "parada" e para que o capital possa girar. Para consumir, são necessários recursos, ou seja, dinheiro, e a forma de o conseguirmos é trabalhando. Lembre-se que, na crise econômica nos anos de 2009/2010, o governo brasileiro investiu no consumo interno, na liberação de crédito e na isenção de I.P.I. em determinados produtos, como os carros. Por que será?
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O consumo é permeado pela troca de mercadorias. Hoje, tudo é mercadoria: a água, a comida, o vestuário, ou seja, precisamos adquiri-las para suprir nossas necessidades básicas e nossas "necessidades adquiridas/inventadas" (como o smartphone, por exemplo). Assim, pergunto: é possível uma sociedade de consumo sem mercadorias?
Retomando, dentre os teóricos que defendiam a manutenção do Estado Liberal, ou seja, eram contrários tanto ao retorno do Antigo Regime quanto à superação em direção ao Socialismo, estavam os positivistas. De acordo com eles, a nova ordem estava em uma situação caótica, por isso a necessidade de estudar a sociedade, entender o seu funcionamento por meio de leis, e aplicá-las para que, ao estabelecer a ordem, fosse garantido o progresso.
Indicação de Vídeo
Acesse o site oficial do filme e veja o trailer:
Disponível em: https://globofilmes.globo.com/filme/cidadededeus/. Acesso em: 8 maio 2021.
Leia críticas a respeito do filme no site abaixo:
Disponível em: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-45264/. Acesso em: 8 maio 2021.
E o filme “Carandiru”? Neste nos é apresentado um espaço no qual as pessoas deveriam se preparar para serem reintegrados a ordem o que, como sabemos, não ocorre. Porém, no interior do presídio, assistimos a uma organização própria, uma ordem necessária para a sobrevivência daqueles que ali se encontram.
Indicação de Vídeo
Acesse o site oficial do filme e veja o trailer:
Disponível em: https://globofilmes.globo.com/filme/carandiru/. Acesso em: 8 maio 2021.
Leia as críticas a respeito do filme:
Disponível em: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-52585/. Acesso em: 8 maio 2021.
Outro filme interessante é o “Tropa de Elite”, que apresenta um esquadrão pronto a manter a ordem. Exibe um conflito entre duas sociedades, que não teria como se misturar, apesar do discurso de tolerância que envolve o mundo das drogas. Realiza uma crítica direta a sociologia de Michel Foucault.
Indicação de Vídeo
Veja o Trailer no link abaixo:
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=_V_nZNWPYQk. Acesso em: 8 maio 2021.
Leia as críticas a respeito do filme abaixo:
Disponível em: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-133548/criticas/espectadores/recentes/. Acesso em: 8 maio 2021.
Outra dica é o filme “Ensaio sobre a Cegueira”, quando em uma sociedade com características apocalípticas, busca-se uma nova ordem, a partir de elementos que são próprios aos seus atores.
Indicação de Vídeo
Veja o Trailer abaixo:
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=6wyj1V-aKVc. Acesso em: 8 maio 2021.
Leia as críticas a respeito do filme:
Disponível em: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-119191/. Acesso em: 8 maio 2021.
Recomendamos também a leitura de uma análise sobre o filme: “Ensaio sobre a Cegueira' mostra o inferno da natureza humana”:
Disponível em: https://cultura.estadao.com.br/noticias/cinema,ensaio-sobre-a-cegueira-mostra-o-inferno-da-natureza-humana,230603. Acesso em: 8 maio 2021.
Émile Durkheim
Antes de iniciar esta aula, pedimos que, caso seja possível, leiam o capítulo intitulado "O que é um Fato Social", do livro: DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999, e também assistam o filme "Bicho de Sete Cabeças", abaixo segue a indicação do filme e até mesmo uma análise sobre ele.
Indicação de Vídeo
Veja o Trailer:
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=lBbSQU7mmGA. Acesso em: 8 maio 2021.
Veja uma crítica a respeito do filme:
Disponível em: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-44066/. Acesso em: 8 maio 2021.
Acesse uma análise do filme – “Bicho de Sete Cabeças” (2001): Reflexos Roubados: Disponível em: http://interrogacao.com.br/2014/07/bicho-de-sete-cabecas-2001-reflexos-roubados-analise/. Acesso em: 8 maio 2021.
Daremos continuidade na aula falando sobre Émile Durkheim (18581917), o autor citado acima, francês e um dos clássicos da Sociologia positivista. Lecionou Sociologia na Sorbonne, Paris. Segundo ele, o objeto da sociologia são os fatos sociais. "A sociedade não é a soma de indivíduos, é um sistema formado por grupos de pessoas com caracteres próprios".
Abaixo você pode conferir os princípios do sistema de Émile Durkheim:
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A sociologia é uma ciência independente das outras sociais e da filosofia;
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A realidade social é formada por fenômenos coletivos;
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A causa dos fatos sociais deve ser procurada nos fenômenos sociais que o antecedem;
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Todos os fatos sociais são exteriores ao indivíduo.
A sociologia, ciência positiva, com objeto próprio, não se pode reabsorver em qualquer outra ciência (biologia, psicologia), nem reduzirse ao conjunto ou à síntese de ciências sociais particulares: ela é o estudo objetivo e desinteressado dos fatos ou realidades sociais, atuais e vivas (Ex. movimento social) ou latentes e cristalizadas em instituições, isto é, todas as crenças ou todos os modos de conduta instituídos pela coletividade. Os fatos sociais são exteriores às consciências individuais, da mesma maneira que os caracteres distintos da vida são exteriores às substâncias minerais que compõem o ser vivo; eles não diferem somente em quantidade dos fatos psíquicos; eles tem um outro substratum, não evoluem no mesmo meio, nem dependem das mesmas condições. A realidade dos fatos sociais é objetiva: "não podemos fazer uma noção adequada por um simples processo de análise mental [...] o espírito não pode compreender senão com a condição de sair de si observação e experimentação".

Agora, pedimos que se direcionem ao Blog Extra Sala (clique aqui), e façam um comentário sobre o conteúdo abordado. Dê um exemplo sobre como o conceito de Fato Social pode ser identificado no filme, e um exemplo de como o Fato Social poderá ser identificado em sua vida profissional.
Max Weber
Bom pessoal, vamos tratar agora do autor Max Weber, a partir de um conceito importante desenvolvido por ele, o de “Dominação Legítima”. Vamos ainda realizar uma pequena reflexão sobre o filme "A Fuga das Galinhas".
Indicação de Leitura
Sugiro a leitura do seguinte livro: WEBER, Max. Os Três Tipos Puros de Dominação Legítima. Tradução de Gabriel Cohen. Rio de Janeiro: VGuedes Multimídia, 2008. Sugiro ainda a leitura do seguinte texto, que faz comentários a obra de Max Weber: Texto (clique aqui).
Max Weber está vinculado a uma perspectiva da sociologia chamada de compreensiva, possuindo um enfoque completamente diferente das demais sociologias consideradas clássicas. Nesta sociologia, a ênfase está na capacidade de ação dos indivíduos. Ela visa captar as conexões de sentido das ações sociais. Nesta maneira de ver a realidade social, as sociedades são elementos extremamente complexos, por serem constituídas por indivíduos que orientam suas ações de acordo com vários fatores.
Este tema é fundamental para quem atua na área de ciências sociais aplicadas (direito, administração, contabilidade, turismo e afins), na área de saúde e para os analistas políticos, que buscam entender como se dão as relações de poder no mundo contemporâneo.
Um dos conceitos mais importantes elaborados pelo autor, é o de dominação legítima. Para Max Weber, toda dominação ocorre pela possibilidade de encontrar obediência a um certo mando, pressupondo assim submissão, mas também legitimidade.
O Tipo Ideal de dominação (sobre o conceito de tipo ideal, clique aqui) é a denominada por ele de “Dominação Legal”, ou seja, quando a obediência se dá em relação a regra, e não a pessoa. Este é o caso dos poderes abaixo:
Ou seja, a obediência do empregado em relação ao empregador, do atleta em relação ao seu técnico e da população em relação ao político eleito se dá em relação a regra, e não em relação a pessoa: respeita-se o patrão, o técnico e o político não pela pessoa que ele é, mas pelo cargo que ele ocupa.
Assim, se trocar o técnico, o atleta continuará a respeitar a pessoa que ocupar a posição. Claro que, para ocupar estes lugares, são necessárias competências que os distinguem dos demais, levando a definição de hierarquias que, por sua vez, define salários, privilégios e, principalmente, responsabilidades. Melhor dizendo, para Max Weber o foco estaria no Mérito, na Disciplina e na Racionalidade, naquilo que ele chamou de Dominação Burocrática.
Para o autor, existem três tipos de dominação legítima, o que pressupõe que existam dominações ilegítimas, tais como: o tirano e o sequestrador. Os três tipos legítimos de dominação seriam:
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Dominação Legal: aquela baseada no direito e que, desta forma, pode ser alterada desde que sancionada corretamente. É o caso da estrutura organizacional de uma instituição, que pode ser alterada, e assim, mudar as relações estabelecidas. O tipo de dominação legal está presente em qualquer instituição que possua hierarquia e burocracia, ocorrendo sempre que há regras instituídas. É o caso do juiz de futebol, do professor ou do chefe do setor: a dominação se dá pela posição que ocupa, e não necessariamente pela competência ou pelo carisma de quem ocupa;
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Dominação Tradicional: que pressupõe a crença nos poderes instituídos, seja pela santidade dos mesmos (caso dos líderes religiosos em geral), seja pela chamada ordenação dos poderes (caso do rei ou do poder da família sobre os filhos). A obediência, neste caso, dá-se pela fidelidade e pela tradição, e a administração dá-se por pessoas próximas ou dependentes do senhor, havendo assim uma carência do conceito de competência. O resultado prático é que as decisões acabam sendo tomadas a partir de parâmetros pessoais, e não burocráticas. É o cargo de confiança, quando o funcionário assume uma posição não pela sua competência, mas por ser "amigo do chefe" ou ainda pela necessidade de se respeitar acordos ou favores políticos. A fidelidade, neste caso, dá-se pela educação (as crianças aprendem a respeitar os pais) ou pelos hábitos cotidianos e domésticos (caso do rei ou ainda, do personagem principal do filme “O Poderoso Chefão”).
- Dominação Carismática: essa dominação dá-se em virtude da devoção afetiva à pessoa e seus dotes "sobrenaturais". É o caso daquele “cara legal”, que conquista todos de primeira, inclusive o chefe, pelo seu carisma. Max Weber identifica como exemplos, o caso do profeta, do herói, do guerreiro ou ainda do demagogo. Neste caso, a obediência se dá pela qualidade do líder, não pela sua posição ou pela dignidade/tradição, com o tempo de dominação estando limitada ao tempo do carisma. Daí a necessidade de o poder carismático transformar-se em tradicional ou legal, sob risco de durar pouco e ser substituído por outro, também carismático.
O filme “Fuga das Galinhas”, trata da tentativa de fuga dos personagens principais de um galinheiro, local onde são oprimidos pelos seus donos, aborda temas diversos, como: campo de concentração, produção em série, luta de classes e tecnologias.
Indicação de Vídeo
Veja o Trailer abaixo:
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=UbkRd06VvH8. Acesso em: 8 maio 2021.
Leia também a crítica a respeito do filme:
Disponível em: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-27791/. Acesso em: 8 maio 2021.
No caso do tema aqui abordado, podemos encontrar pelo menos três exemplos de dominação legítima:
Fonte: disponível em: https://revistamonet.globo.com/Filmes.... Acesso em: 8 maio 2021.
- Dominação Carismática: é o caso do galo americano, que chega ao galinheiro e, pelo seu carisma, convence a todos de seu potencial para o voo. Perceba que, como não tem a competência que lhe é atribuída, perde o poder assim que é desvendado, ou seja, assim que perde seu carisma;
Fonte: disponível em: https://revistamonet.globo.com/Filmes.... Acesso em: 8 maio 2021.
- Dominação Tradicional: é o caso do galo mais velho, que atuou na segunda guerra mundial e detém uma posição de mando que ninguém e questiona, por estar historicamente consolidada, sendo assim tradicionalmente aceita. Este é o caso também da personagem principal do filme, que exerce poder sobre as demais não pelo carisma nem por atributos legais, visto que não foi eleita líder pelas demais galinhas do galinheiro;
- Dominação Legal: a que mais se aproxima é a galinha "intelectual", que no final se torna professora de crianças. Aparentemente, detém um tipo de formação ou de conhecimento que a faz exercer um certo poder sobre as demais, em uma espécie de dominação legal, neste caso, inquestionável;
Fonte: disponível em: https://revistamonet.globo.com/Filmes.... Acesso em: 8 maio 2021.
- Há também o caso da dominação não legítima, ou tirana, no caso da dona do galinheiro.

Parece incrível tantas características sociológicas poderem ser visualizadas em um filme "infantil", não é?
Análise do Filme “300”
Vamos iniciar agora a análise do Filme "300". Antes de mais nada, dê uma olhada no trailer, e leia uma crítica sobre o filme:
Indicação de Vídeo
Veja o Trailer do filme abaixo:
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=hIL3nTSwvXs. Aces so em: 8 maio 2021.
Leia a crítica a respeito do filme:
Disponível em: http://www.adorocinema.com/filmes/filme-57529/. Acesso em: 8 maio 2021.
O filme é baseado em uma história em quadrinhos, de Frank Miller, que por sua vez é pautada em um livro histórico, de Heródoto. Ou seja, ao olhar para o filme, devemos considerá-lo como uma leitura contemporânea de um fato que ocorrera no passado, que foi mediado por uma narrativa primeira (Heródoto) e reapropriado por Frank Milller. Assim, se houver intenção comparativa, ele deve ter mais características em relação com a HQ, e não com a obra de Heródoto. O filme trata de questões históricas, mas também de elementos contemporâneos, que não devem ser ignorados.
Alguns aspectos devem ser aqui considerados, por estarem presentes no filme: na Grécia apresentada, haviam dois discursos tido como verdadeiros: o profético e a narrativa histórica. Tanto que Leônidas, o personagem principal do filme, orienta a um de seus soldados a retornar para contar a história dos 300. Outro momento, em que a importância deste tipo de discurso é apresentada, acontece quando Xerxes ameaça apagar Esparta e Leônidas da História.
Leônidas para Dilios:
“Conte a eles nossa história. Faça com que todo grego saiba o que houve aqui. Terá uma história e tanto para contar. Uma história de vitória”.
A origem espartana está em Dórios (1.000 a.c.), que são considerados descendentes de Hércules, que invadem a região do Peloponeso. No processo de invasão, estabelecesse que aqueles que aceitassem a soberania espartana (dória) estariam livres e os demais, escravos. Na prática, o mesmo que Xerxes estava exigindo de Leônidas.
Em relação a batalha apresentada no filme, está inserida no contexto das "Guerras Médicas", marcada por dois momentos cruciais: a Invasão Persa de Dário I, derrotado na batalha de Maratona, pelos Atenienses, e a Invasão Persa de Xerxes, quando ocorre a famosa Batalha de Termópilas (480 a.c.), retratada no filme, quando um exército de 300 espartanos (liderados por Leônidas) e mais 7.000 gregos enfrentaram 120.000 persas. No filme, são apresentados os Arcadianos, artesãos e camponeses, que viviam da poesia e do prazer.
Fonte: disponível em: http://publicadosbrasil.blogspot.com/2017/10/os-guerreiros-de-esparta-historia.html. Acesso em: 8 maio 2021.
Esta imagem, retirada da HQ, apresenta bem mais de 300 soldados, indicando a presença de outros gregos presentes na batalha.
Fonte: disponível em: https://www.elleonestoico.com/el-sistema-politico-de-esparta/. Acesso em: 8 maio 2021.
Neste momento, a democracia grega era marcada por alguns princípios, tais como:
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Igualdade entre os cidadãos (por esse motivo a importância de se entender quem era considerado cidadão);
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Respeito às leis;
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Participação política dos cidadãos (Apela);
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Educação para o cidadão, visando uma atuação para o Estado (Paidéia);
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Existência de um Conselho (Gerúsia) de Anciãos;
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Importância da retórica e do convencimento;
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Respeito à religiosidade e aos deuses;
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conflito entre o poder temporal e o espiritual, elemento presente na obra “Édipo Rei” (https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%89dipo).
Neste tipo de sociedade, a seleção ocorre desde o nascimento sendo que, quem não fosse considerado adequado, seria descartado, elemento apresentado logo no início do filme.
Outra forma de seleção seria pela educação, que em Esparta era voltada para o combate, sendo denominada de Agogê. Era marcada fortemente pelo adestramento e treinamento. Ocorria a partir dos oito anos de idade sendo que, a partir dos doze anos era inserido o aprendizado das letras, cálculo e música. A educação era obrigatória para os cidadãos e ficava a cargo do Estado. Vale salientar que o filme aborda apenas o aspecto violento da educação: ou volta um espartano, ou nada.
Fonte: disponível em: https://lahistoriarima.wordpress.com/2017/10/16/agoge-la-educacion-espartana/. Acesso em: 8 maio 2021.
Outros aspectos apresentados no filme são o papel da mulher na sociedade espartana e a importância da palavra neste tipo de sociedade: em Esparta, todos são responsáveis pelo que dizem, inclusive mensageiros/diplomatas. Seria este fato que justificou a ação de Leônidas frente ao mensageiro de Xerxes.
Fonte: disponível em: https://misteriosdomundo.org/13-cenas-de-filmes-famosos-que-foram-totalmente-improvisadas/. Acesso em: 8 maio 2021.
O papel da mulher seria dar à luz a guerreiros espartanos. Tanto que, quando a esposa de Leônidas se dirige ao conselho de anciões, causa estranheza entre os presentes. Tal fato só fora aceito por ser ela uma rainha. Outro fato apresentado no filme é o uso do corpo como troca política, o que era aceitável para os padrões da época.
A sociedade espartana era guerreira, elemento apresentado em diversos momentos, em especial quando, ao partir, a mulher de Leônidas diz a seguinte frase: “Volte com seu escudo, ou em cima dele”. Era habitual o uso desta pelas mulheres, quando seus filhos/maridos iam para guerra. Não havia lugar para ternura ou fraqueza, pois apenas os duros e fortes poderiam ser considerados espartanos.
Neste sentido, a reação do pai de Astinos, ao encarar a morte do filho, é incompatível para um espartano. Perde o controle, chora, grita de dor/raiva. Apresentamos aqui alguns aspectos "históricos", presentes no filme. Agora, trataremos dos aspectos contemporâneos.
Análise do Filme “300” (Parte 02)
Nesta segunda parte da análise do filme “300”, vamos abordar um aspecto do mundo contemporâneo que está presente em todo filme, ou seja, a oposição: ocidente x oriente, também entendida como civilização x barbárie.
Você se recorda desta cena:
Fonte: Filme 300 (2007)
Ela representa a luta entre a civilização e a natureza. Tanto, que no filme, o narrador compara os Persas com o lobo, ou seja, com a selvageria, a barbárie: “E agora, como então, uma besta se aproxima”.
Os Persas são comparados com um exército de escravos, enquanto os Gregos, são livres. Temos assim uma oposição: liberdade do povo grego (civilizado) X tirania e escravidão dos persas (bárbaros). Os espartanos seriam os defensores da razão e da justiça, enquanto que a diplomacia Persa trazia consigo a morte e a destruição, simbolizada pelas caveiras que carregavam consigo. O exército espartano é marcado pela honra e pela racionalidade: luta-se primeiro com a cabeça, depois com o coração, enquanto que os Persas são os bárbaros que invadem a aldeia e formam uma árvore com seus corpos. Vejam algumas imagens, que destacam a barbárie Persa:
Fonte: Filme 300 (2007)
Fonte: Filme 300 (2007)
Persas são monstruosos, deformados ou místicos, enquanto os Espartanos são belos, perfeitos e racionais, e assim, superiores.
Fonte: Filme 300 (2007)
Persas são bárbaros que invadem a aldeia e formam uma árvore com seus corpos.
Fonte: Filme 300 (2007)
E os Espartanos são guerreiros civilizados, que fazem uma montanha de corpos! São mesmo os gregos civilizados?
Fonte: Filme 300 (2007)
Os Persas fazem uso de grandes monstros da natureza, da magia e são tidos por covardes, ao lançarem uma investida com flechas contra os Espartanos:
Fonte: Filme 300 (2007)
Os Persas são assim apresentados como monstruosos, aberrações, desorganização, covardes (arco e flecha) e mágicos, enquanto os Espartanos são belos, harmoniosos, organizados, corajosos e racionais. A elite dos guerreiros Persas seriam “os Imortais”, caçadores de almas humanas, que não podem ser mortos ou derrotados. Já os 300 de Esparta seriam "soldados cidadãos, escravos alforriados. Todos gregos corajosos”. E aqui temos outro elemento da oposição ocidente e oriente: o entre Liberdade e Tirania: ideia de que os livres sempre vencem “Hoje, salvamos o mundo do misticismo e da tirania, e partimos em direção a um futuro muito melhor”. Interessante que o próprio filme faz a crítica a esta oposição: quem realmente seria civilizado, e quem seria bárbaro? Seria essa oposição possível?
É o personagem Efialtes que apresenta a contradição espartana, ou seja: não há possibilidade de igualdade em Esparta. O personagem seria o resultado do amor, ou seja, da fraqueza da mãe, que o salvou e, ao mesmo tempo, o condenou. Seu pai, como todo espartano, o treinou para a batalha, que não pode acontecer: “Mãe! Pai! Vocês estavam errados. Leônidas, você está errado”. E, ao não ser aceito, trai Leônidas.
Fonte: Filme 300 (2007)
São os Persas que aceitam o “diferente”, sendo esta uma característica do Império. Oferece ainda o que os espartanos não poderiam: um uniforme. Em troca, Efialtes deve ajoelhar-se, aceitando a vaidade do rei Persa.
Fonte: Filme 300 (2007)
Seria o Rei Xerxes que daria um passo em direção a negociação, negada por Leônidas. É ainda o Persa que apresenta falas de possível respeito ao outro: "Nossas culturas têm muito que aprender uma com a outra” / “Sua tribo é fascinante”. Há ainda um discurso manipulado e descontextualizado, quando Xerxes afirma que "mataria qualquer um dos meus", e Leônidas que "morreria pelos meus". Manipulado pois, para Xerxes, os seus são tão importantes que matá-los seria um Grande Sacrifício, reflexão não entendida pelos espartanos. Os espartanos também não estavam livres da magia. O filme apresenta “Os Éforos” que, em número de cinco, coordenavam a vida política de Esparta e davam ordem para guerra, ou seja, não estavam livres das oposições que enfrentariam na guerra contra os Persas, em especial:
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Razão X Superstição;
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Iluminação X Escuridão;
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Modernidade X Tradição.
Ao procurarem os Éforos, consultam o Oráculo: geralmente mulher mais velha, que vivia isolada em templos dedicados aos Deuses. No filme, uma menina "aprisionada". Como resultado da consulta, foi citada a Carnéia, um dos mais importantes festivais religiosos de Esparta e, de acordo com a tradição, o exército não deveria deixar a cidade durante as festividades.
Fonte: Filme 300 (2007)
Leônidas teria assim que respeitar a Carnéia e o Oráculo, que previra também a morte de um rei em batalha. Outro exemplo de magia foi o auxílio de Zeus contra os Persas, que encaminha uma tempestade que destrói parte do exército de Xerxes.
Na consulta aos Éforos, é apresentado uma outra característica tida como fundamental para os guerreiros de Esparta: eram incorruptíveis. Políticos e Éforos seriam inferiores, pois corruptos, que tinham que ser agraciados. Aproximam-se assim do inimigo, visto que Xerxes também tentara corromper Leônidas. Há assim uma desqualificação da política, que teria papel secundário, e a valorização do guerreiro.
Dois personagens representam a corrupção: Théron, político jovem, que fez uso de influências e da retórica para manipular o conselho, e Efialtes, tido por meio homem, traidor e corrupto, que recebe o pior insulto de todos: “que viva para sempre”, ou seja, que não morra em combate, como todo bom espartano.
Bom pessoal, espero que tenham gostado da análise feita. Abraços, e até a próxima.
Figura 2 - Leônidas nas Termópilas
Fonte: David, Jacques Louis Musée du Louvre (1824)


















